Há algo profundamente errado acontecendo dentro das casas, das relações e das mentes de muitos homens no Brasil. E não é de hoje — mas, nos últimos tempos, tornou-se impossível ignorar.
Casos brutais, repetidos, cada vez mais cruéis. Mulheres assassinadas por ex-companheiros que não aceitam o fim do relacionamento. Crianças mortas pelos próprios pais como forma de vingança contra a mãe. Crimes cometidos com frieza — e, muitas vezes, anunciados.
Os dados confirmam o que sentimos todos os dias ao abrir um portal de notícias.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou mais de 1.460 feminicídios em 2023, o maior número desde que o crime passou a ser contabilizado. Em média, quatro mulheres são assassinadas por dia no país simplesmente por serem mulheres.
E o mais chocante: na maioria dos casos, o assassino é alguém próximo.
Companheiro. Ex-companheiro. Marido. Ex-marido.
Dentro de casa. No lugar onde deveria existir proteção.
Dados recentes apontam que mais de 60% dos feminicídios acontecem no ambiente doméstico. Ou seja, o perigo não está na rua — está dentro da relação.
E quando falamos em violência, os números são ainda mais assustadores: só em 2024, o país registrou mais de 245 mil denúncias de violência doméstica através dos canais oficiais. Isso sem contar os casos que nunca são denunciados.
Mas mais do que números, são histórias.
Mulheres com nome, com filhos, com sonhos — interrompidos por um sentimento que muitos ainda insistem em romantizar.
Não é amor.
Nunca foi.
É posse.
É controle.
É ego ferido.
É incapacidade de lidar com a rejeição.
É uma cultura que ainda ensina que o homem manda, que o homem decide, que o homem não pode ser contrariado.
E quando a mulher diz “não”, quando ela decide ir embora, quando ela escolhe viver sem aquele homem — alguns simplesmente não aceitam.
E transformam isso em violência.
Mas o que está acontecendo com o emocional desses homens?
Estamos criando meninos que não aprendem a lidar com frustração. Que não aprendem a ouvir “não”. Que não são ensinados a respeitar limites. Que confundem amor com posse. Que crescem vendo o machismo naturalizado dentro de casa, nas ruas, nas músicas, nas piadas.
E quando esses meninos viram homens, alguns se tornam incapazes de lidar com a autonomia de uma mulher.
Aí vem a tragédia.
E não são casos isolados. Quando um homem mata a companheira, quando outro tira a vida dos filhos para atingir a ex-mulher, quando a violência vira vingança — isso revela um padrão. Um padrão estrutural.
Isso é um problema de segurança pública, sim.
Mas é, antes de tudo, um problema social, cultural e emocional.
E precisamos encarar isso com coragem.
Onde estamos falhando na educação dos nossos filhos?
O que estamos ensinando dentro de casa?
Que tipo de masculinidade estamos reforçando?
Por que ainda há quem chame isso de “crime passional”?
Desde quando rejeição virou motivo para matar?
Quantas mulheres ainda precisam morrer para que a sociedade pare de tratar o feminicídio como mais uma notícia de rotina?
Não podemos normalizar.
Não podemos relativizar.
Não podemos nos acostumar.
Como jornalista, eu denuncio.
Como mulher, eu me revolto.
Como mãe, eu me preocupo — profundamente — com o tipo de mundo que estamos deixando para nossos filhos e filhas.
Porque enquanto houver homens que não aceitam o fim de uma relação…
enquanto houver crianças sendo usadas como instrumento de vingança…
enquanto houver mulheres implorando pela própria vida — e sendo mortas…
nós, como sociedade, estamos falhando.
E a pergunta que fica para você, leitor, é direta:
que tipo de homem estamos formando?
E o que você está fazendo, dentro da sua casa e da sua realidade, para mudar isso?





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