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Que sociedade estamos criando dentro de casa?

É fácil apontar o dedo, pedir punição, exigir respostas do Estado. Mas é dentro de casa que tudo começa.

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Vivemos dias em que abrir o noticiário se tornou um exercício de espanto — e de dor. Em poucos dias, o Brasil foi confrontado com episódios que chocam não apenas pela violência em si, mas pelo perfil de quem a pratica. Um adolescente espancado brutalmente por outro jovem, atingido na cabeça, hoje lutando pela vida em um leito de hospital. Em outro ponto do país, meninos maltratam um cachorro de forma tão cruel que o animal não resiste. Casos diferentes, contextos distintos, mas um ponto em comum impossível de ignorar: a banalização da violência.

São fatos que viralizam, circulam nas redes sociais, geram indignação, comentários inflamados e, logo depois, caem no esquecimento coletivo — até que o próximo episódio ocupe o lugar. Mas o que esses casos dizem sobre nós? O que eles revelam sobre a sociedade que estamos construindo e, principalmente, sobre os filhos que estamos criando dentro de casa?

Como jornalista, me chama atenção a repetição do padrão: jovens cada vez mais cedo envolvidos em atos extremos, impulsivos, desproporcionais. Como mãe, o sentimento é de angústia. Porque não estamos falando apenas de “casos isolados”. Estamos falando de comportamentos que não surgem do nada. Ninguém acorda um dia e decide espancar alguém até deixá-lo em coma. Ninguém aprende a maltratar um animal sem antes ter perdido, em algum momento, a noção de empatia, de limite, de respeito à vida.

E aí entra uma pergunta incômoda, mas necessária: onde nós, adultos, estamos falhando?

É fácil apontar o dedo, pedir punição, exigir respostas do Estado. Mas é dentro de casa que tudo começa. Que valores estamos ensinando? Que exemplos estamos dando? Estamos presentes ou apenas coexistindo sob o mesmo teto? Estamos atentos ao que nossos filhos consomem na internet, às referências que seguem, à forma como lidam com frustrações e conflitos?

A internet, aliás, tem um papel ambíguo nisso tudo. Ela informa, denuncia, expõe. Mas também normaliza, dessensibiliza, transforma dor em espetáculo. Vídeos de agressão circulam como entretenimento, comentários violentos ganham curtidas, a falta de empatia vira regra. O ambiente digital, sem mediação e sem diálogo, pode reforçar comportamentos que já estavam em formação.

Não se trata de criminalizar adolescentes ou reduzir tudo a uma falha individual. Trata-se de entender que a violência é um sintoma, não a causa. Sintoma de famílias ausentes, de uma sociedade adoecida emocionalmente, de uma cultura que ainda confunde autoridade com agressividade e silêncio com educação.

Como sociedade, precisamos parar de reagir apenas quando a tragédia acontece. Precisamos falar sobre educação emocional, sobre limites, sobre responsabilidade parental. Precisamos olhar para dentro — para nossas casas, nossas rotinas, nossos exemplos — antes de procurar culpados fora.

Fica, então, a reflexão que não quer calar: quem são, de verdade, os jovens que estamos formando? E mais — o que estamos fazendo hoje que pode explicar as manchetes de amanhã?

Vânia Vìgo é Jornalista e Pós-Graduada em Jornalismo Político

Por: Vania Vigo

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