Memorias e inquietações

 

Recentemente, numa entrevista com Fernando Gabeira e Lilia Leitão, foi uma oportunidade para sensibilizar, emocionar e refletir sobre um período de extremismo registrados na história do Brasil, ao ponto de lacrimejar os olhos.  Pessoas da geração de 50/60, adolescentes, ainda no processo de formação da consciência e responsabilidade política, conviveram com um período conturbado da vida brasileira, reagem ao se confrontar com o renascimento de uma ideologia extrema que passava a ilusão de ter sido fora do contexto da atualidade e da realidade dos anos 20.

Os relatos de Lilia e Gabeira relembram as motivações que levaram muitos a decidir participar de entidades, diretórios acadêmicos, grêmios escolares com o apoio da União Nacional dos Estudantes – UNE, na época sob a liderança de José Dirceu e Travasso. Era impossível se manter inerte ao ter notícias de prisões arbitrárias e fugas de pessoas próximas da convivência. Deixar de somar esforços, prestar solidariedade e apoio a pessoas que se ariscavam em defesa da democracia, da liberdade e do estado direito, a exemplo de Chico Pinto, Waldir Pires, Haroldo Lima, Wladimir, Teotônio Vilela, Adelmo Oliveira, para ficar nos mais próximos. De não reconhecer as atitudes corajosas e patrióticas de Ulisses Guimarães, Pedro Simon, Paulo Brossar, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, Fernando Henrique Cardoso e dos camaradas que optaram por participar de agremiações armadas, ultimo recursos para garantir a integridade física e mental. Como não trazer na memória os debates e as decisões entre os membros do grêmio e na sede da UNE, no apoio aos estudantes da Universidade Federal da Bahia que promoviam manifestações no pátio da reitoria e caminhadas do Campo Grande à Praça Castro Alves, sob a repressão policial e refúgio no Mosteiro de São Bento. Enfim, como não recordar do processo em direção à volta das eleições diretas, das manifestações, inicialmente, nas unidades estudantis, sindicatos e partidos político, posteriormente no parlamento e nas ruas. Culminando com o grande encontro em São Paulo denominado por “Diretas Já”.

Passada essa fase, quando aos poucos os militares cederam o comando do país às forças democráticas, o processo da anistia permite o retorno dos que se exilaram e a reconstituição dos poderes da república que fundamentaram uma nova constituição em 1988, pensávamos que o extremismo estava extinto e passara a ser parte da histórica política do Brasil. Um erro histórico. Apenas se retraíra e se mantivera no seio da sociedade aguardando a oportunidade para voltar a se manifestar.

Em 2017, considerando o terreno fértil, o extremo político volta a se manifestar com a intensidade que um cenário novo o permitia e chega ao poder executivo da federação e estende seus tentáculos para o poder legislativo sob a égide do “centrão”.

Os fatos acumulados nos últimos anos culminado com a exposição ao ridículo das instituições brasileiras aos embaixadores estrangeiros torna o cenário político brasileiro sensível, preocupante e guarda especial expectativa da América Latina, Central, Estados Unidos e da Europa quando sinais de autoritarismo, também, se manifestam, como ênfase maior para os últimos acontecimentos no Capitólio Americano por incentivo de um presidente, em desrespeito aos princípios democráticos, não aceitava a derrota pelo processo do voto. Passados quatro décadas, não passa no pensamento que voltamos a vê nações, instituições nacionais e estrangeiras, sindicatos patronais e de trabalhadores, mais ainda, os setores produtivos, do agronegócio e financeiro (bancário) e a população em geral se manifestarem em favor da democracia, do respeito às instituições que tem a incumbência de reger o processo eleitoral (TSE) e do estado de direito em ambiente de 24 milhões de pessoas na linha da miséria, passando fome, 12 milhões de desempregados, 66 milhões de pessoas inadimplente com as despesas básicas (alimentação, energia elétrica e saneamento básico), inflação de dois dígitos, desmatamento da florestas, garimpo irregular, inclusive em áreas de preservação ambiental e de reserva indígenas.

Que DEUS e os Orixás nos protejam.

 

Adelmo Borges

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