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O problema não é apenas trabalhar muito

O debate sobre a escala 6x1 revelou algo maior: uma geração que trabalha cada vez mais, mas continua vivendo cansada, insegura e sem sensação de estabilidade.

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Talvez seja sobre uma geração inteira cansada de trabalhar muito e sentir que nunca chega a lugar nenhum. Nas últimas semanas, o Brasil voltou a discutir a famosa escala 6x1 — seis dias de trabalho para um único dia de descanso. O assunto tomou conta das redes sociais, dos programas de televisão e das rodas de conversa. Uns dizem que o brasileiro quer trabalhar menos. Outros afirmam que o país não suporta reduzir jornada porque a produtividade ainda é baixa. Mas talvez o centro da discussão esteja sendo ignorado. O problema não é apenas trabalhar seis dias.

O problema é trabalhar seis dias e continuar vivendo cansado, inseguro e com a sensação de que o esforço nunca é suficiente.Moro em Portugal há sete anos e posso dizer com tranquilidade: existe uma grande ilusão no Brasil sobre a vida na Europa. Portugal oferece alguns aspectos positivos importantes, especialmente em relação à segurança e à sensação de estabilidade social. Mas isso não significa, necessariamente, qualidade de vida para todos O salário mínimo em Portugal é de 920 euros, e uma parte significativa dos trabalhadores recebe valores próximos desse patamar ou ligeiramente acima dele. Ao mesmo tempo, os preços dos arrendamentos aumentaram muito nos últimos anos. Em várias cidades, especialmente Lisboa e Porto, uma pessoa sozinha dificilmente consegue viver com conforto pagando aluguel, contas, alimentação e transporte.


Na prática, muitos casais precisam que os dois trabalhem para manter uma vida minimamente estável. E muitos imigrantes acabam dividindo apartamentos ou morando em quartos para conseguir reduzir custos. E aqui está o ponto importante: isso não é exclusividade do Brasil. Em vários países, inclusive europeus, as pessoas continuam trabalhando muito para manter uma vida básica. A diferença é que alguns países conseguem oferecer mais equilíbrio entre esforço, segurança econômica e dignidade cotidiana. A Dinamarca, por exemplo, costuma aparecer entre os países com melhor equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. A jornada média semanal é menor do que a brasileira, o transporte funciona, os salários têm maior poder de compra e existe uma sensação maior de segurança econômica. Isso muda tudo.


Porque trabalhar muito não pesa da mesma forma quando a pessoa sente que consegue viver com dignidade. No Brasil, porém, o desgaste parece maior. Muita gente acorda cedo, enfrenta horas no trânsito ou no transporte público, trabalha o dia inteiro, volta para casa exausta e ainda termina o mês com medo das contas. Talvez seja por isso que o debate sobre a 6x1 tenha ganhado tanta força. Não necessariamente porque as pessoas não querem trabalhar. Mas porque estão emocionalmente cansadas.
E esse cansaço não vem apenas do emprego.Vem do custo de vida. Vem da pressão constante. Vem da sensação de atraso. Vem das redes sociais vendendo uma vida perfeita.Vem da comparação diária. Vem do medo de nunca conseguir estabilidade.

A discussão, portanto, é muito mais profunda do que parece. Não se trata apenas de reduzir jornada. Trata-se de entender por que tantas pessoas trabalham tanto e ainda sentem que estão apenas sobrevivendo. Talvez a grande crise moderna não seja a falta de emprego. Talvez seja a sensação de que trabalhar deixou de ser garantia de tranquilidade. E isso vale para o Brasil, para Portugal e para boa parte do mundo. No fim das contas, talvez o trabalhador moderno não esteja pedindo luxo. Talvez esteja apenas tentando recuperar algo que deveria ser básico:tempo para viver.

Vânia Vigo é Jornalista, Escritora e Pós-Graduada em Jornalismo Político


 

Por: Vânia Vìgo é jornalista e escritora

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