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Quando um influenciador faz o trabalho da Justiça

Humorista de 26 anos rompeu o silêncio ao expor a adultização de crianças nas redes sociais e pressionar autoridades a agir

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Na última semana, um vídeo de 50 minutos publicado pelo criador de conteúdo Felca — visto mais de 26 milhões de vezes — colocou o Brasil diante de um desconforto coletivo: a adultização e a sexualização de crianças nas redes sociais. No centro das denúncias, o influenciador Hytalo Santos, acusado de expor menores de idade, incluindo uma menina que começou a aparecer em seus vídeos aos 12 anos.

As provas apresentadas por Felca, colhidas a partir de investigações próprias, entrevistas com especialistas e registros públicos, chegaram ao Ministério Público da Paraíba. A resposta foi rápida: a Justiça determinou o bloqueio das contas de Hytalo no Instagram e TikTok, a desmonetização do conteúdo e a proibição de contato com os menores envolvidos. Dois inquéritos foram abertos.

Este caso, no entanto, vai além de um embate entre dois nomes conhecidos da internet. Ele expõe uma engrenagem mais complexa — e perigosa — na qual os algoritmos das redes sociais amplificam conteúdos com crianças, inclusive quando carregam traços de sexualização, entregando-os a públicos que buscam exatamente esse tipo de material. Plataformas que lucram com cada clique, cada visualização e cada compartilhamento pouco ou nada fazem para filtrar esse acesso.

Não é um fenômeno isolado. Segundo dados do SaferNet Brasil, em 2024 foram registradas mais de 130 mil denúncias de exploração sexual de crianças e adolescentes online, um aumento de 38% em relação a 2023. A cada nova estatística, fica mais claro que a internet brasileira vive uma epidemia silenciosa — e que não se resolve apenas com banimentos pontuais.

Há também uma questão incômoda que este caso traz à tona: o papel das famílias. Por que pais e responsáveis permitem que crianças adotem comportamentos, roupas e discursos que as afastam de sua fase de desenvolvimento natural? Por que fecham os olhos quando a “idade biológica” diz infância, mas as redes sociais moldam gestos, falas e posturas de adultos?

Felca, ainda que não seja jornalista nem autoridade, fez o que muitos veículos e instituições não fizeram: reuniu provas, contou uma história e forçou o debate público. Sua ação abre uma reflexão sobre a responsabilidade de todos nós — plataformas, justiça, imprensa, famílias e sociedade civil — diante de um problema que, até ser viralizado, permanecia invisível para a maioria.

No fim, a pergunta que fica é: vamos esperar que outros influenciadores façam o trabalho de proteção que deveria ser dever do Estado, ou vamos assumir que cuidar da infância é tarefa coletiva e urgente?

 

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