De olhos vendados

 

Quem nunca brincou de cabra-cega? Aquela brincadeira em que uma criança, de olhos vendados, tenta espetar no burro o lugar certo do rabo. Enquanto que, as outras crianças gritam, desesperadas, aonde o rabo do burro deve ser espetado?

Mas, para que a cabra-cega tenha sucesso é necessário que a criança, a de olhos vendados, ouça o que dizem as outras que estão a orientá-la. Mas como cada criança se encontra em um determinado lugar as orientações serão desencontradas. Como ela pode confiar aonde colocar o rabo?

Não é à toa que, por muitas vezes, o rabo do burro é espetado em vários lugares errados: na cabeça, nas pernas, na barriga... E até fora do burro!

É uma brincadeira inocente, mas que nos leva a refletir. Não é mesmo?

Andar de olhos vendados nos causa insegurança, uma sensação de desamparo. O não enxergar nos mantêm limitados. E, por isso que, muitas vezes, precisamos seguir a orientação de outra pessoa. Mas nem sempre essas orientações são confiáveis.

Apesar de parecer absurdo, existem pessoas que vivem de olhos vendados porque querem. E, mesmo não possuindo nenhum defeito visual, agem como se fossem inteiramente cegas. Por isso, não é novidade que constantemente tropecem em obstáculos, deem cabeçadas desnecessárias.

Sem a mínima necessidade de se tornarem cabras-cegas, elas continuam seguindo orientações de quem nem sempre tem opiniões formadas. E mesmo quando as informações são contraditórias, se baseando em achismos pessoais, elas continuam colocando o rabo do burro em lugares errados. Pois, cada um tem seu ponto de vista de acordo com seu entendimento, com sua vivência pessoal. E nem sempre os sapatos alheios servem para nossos pés, para nossos calos. Não é mesmo? O mais certo seria, ouvir várias opiniões e tirar suas próprias conclusões, baseando-se em fatos.

Todo mundo, apesar da cegueira, pode desenvolver outros sentidos. Até uma pessoa que nasceu com dificuldade visual consegue enxergar mais que aqueles que nunca sofreram qualquer tipo de bloqueio.

Mas, sem dúvida, existe uma necessidade política e social para manter as pessoas assim, cegas. Alheias aos fatos. Sem discernimento pessoal. Pois pessoas cegas ficam confinadas em suas mentes atrofiadas: sem pensar, sem questionar, fáceis de se manipular.

E enquanto os “cegos” continuarem batendo com as cabeças, guiados por mãos alheias, nunca desenvolverão os sentidos que os ajudariam a enxergar, a ver por outro prisma e quem sabe até ter suas próprias opiniões e o seu próprio ponto de vista.

Enquanto isso, os espertos vão colocando os rabos nos burros sem se vendar.

Então, caros amigos, vamos continuar a brincar de cabras-cegas? Ou seria mais sensato desvendar os olhos?

 

Jussara Pires

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