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Abrantes, a festa e os fatos: o que a chegada do City Football Academy Bahia revela sobre nosso (des)planejamento urbano ?

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O anúncio do City Football Academy Bahia, centro de treinamento do Esporte Clube Bahia, com pedra fundamental lançada em 27 de fevereiro em Abrantes, foi recebido com entusiasmo por autoridades estaduais e pela base política local. A narrativa é sedutora: desenvolvimento, modernização, oportunidades.

Mas toda grande obra também precisa ser analisada a partir do território que a recebe e é exatamente aí que o debate se torna necessário.

Equipamentos esportivos de grande porte podem, sim, gerar empregos e dinamizar economias. O problema surge quando o entusiasmo político substitui a discussão técnica. Empreendimentos não chegam sem impactos: esse já nasce em um local com infraestrutura limitada, desigualdades acumuladas e desafios históricos de mobilidade, saneamento e ordenamento do solo.

Abrantes e seu entorno são um retrato claro desse cenário. A expansão urbana acelerada, a pressão imobiliária e a fragilidade dos serviços públicos já fazem parte do cotidiano local. Diante disso, a questão central não é celebrar ou rejeitar o investimento, mas perguntar: qual é o plano urbano que o acompanha?

Sem planejamento integrado, o risco é conhecido: valorização especulativa da terra, deslocamento de moradores, aumento do trânsito, sobrecarga de equipamentos públicos e aprofundamento das desigualdades territoriais. O desenvolvimento chega, mas de forma seletiva.

Chama atenção que, mais uma vez, o anúncio tenha sido mais robusto do que a apresentação pública de estudos de impacto, estratégias de mobilidade ou diretrizes claras de uso e ocupação do solo. Celebra-se o equipamento, mas pouco se discute o local (Abrantes) que precisará absorver seus efeitos.

Isso revela uma lógica recorrente: grandes obras geram capital político imediato, enquanto o planejamento, silencioso, técnico e de longo prazo, raramente ganha protagonismo. No entanto, é justamente ele que define se o legado será positivo ou problemático.

Questionar não é torcer contra. É reconhecer o potencial do investimento e exigir responsabilidade pública, transparência e visão estratégica. O entusiasmo não pode substituir o planejamento; precisa ser acompanhado por ele.

A chegada do City Football Academy Bahia pode ser uma oportunidade de inaugurar também uma nova forma de pensar o território, baseada em planejamento integrado, participação social e compromisso com a sustentabilidade urbana.

Porque, no fim, a pergunta que permanece é simples: estamos construindo apenas um centro de treinamento ou estamos, de fato, enxergando quem vive no entorno e planejando o que vai existir ao redor dele?

O verdadeiro legado não será medido na cerimônia da pedra fundamental, mas na qualidade de vida que esse projeto ajudará  (ou não) a produzir no território ao longo do tempo.

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